Monção da América do Sul e a ZCAS

A literatura mostra que assim como em outras partes do trópico e do subtrópico ao redor do mundo, a América do Sul também apresenta um sistema de monção. Embora não seja uma monção clássica como no sul da Ásia, o ciclo anual médio de precipitação com déficit de chuva nos meses de inverno e um superávit no verão é só um dos indicativos da monção sul americana, que abrange quase toda a nação brasileira.

Por definição, monção se refere a uma reversão sazonal do vento nos baixos níveis que caracteriza a estação chuvosa no verão e a estação seca no inverno. A mudança do vento está relacionada a diferença térmica e de pressão entre os continentes e oceanos devido ao movimento aparente do sol.

Esquema dos sistemas atuantes em baixos e altos níveis durante o verão sobre a América do Sul.

Na medida em que o verão se aproxima, ocorre o aumento gradativo da temperatura e da umidade, favorecendo o desenvolvimento de trovoadas durante às tardes. Contudo, diversos sistemas meteorológicos típicos da estação chuvosa dão os primeiros sinais de aparição ao longo da primavera, como a Alta da Bolívia, um sistema de alta pressão formado a 10.000 metros de altura nas imediações do território boliviano.

A Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) é o principal sistema precipitante em larga escala sobre o Brasil durante a monção, sendo de extrema importância para diversos setores estratégicos como o de geração de energia elétrica e de recursos hídricos. Portanto, sua ausência no período chuvoso gera inúmeros impactos. No verão de 2013/14, um forte bloqueio impediu a formação da ZCAS e configurou uma das crises hídricas mais graves já vivenciadas na Região Sudeste.

Ocorrência da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) em Janeiro de 2020.

A ZCAS é definida como um corredor de nuvens e chuvas com orientação NO-SE persistente entre o sul da Região Norte, Centro-Oeste, Sudeste e o oceano Atlântico Sul. Sua formação e posição levam em conta o padrão atmosférico de grande escala, mas alguns estudos mostram ainda a influência da temperatura do oceano Atlântico Sul na posição do sistema.

Posição média da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) de acordo com o estudo de Mendonça e Bonatti (2008).

É importante lembrar que não existe uma única configuração atmosférica responsável por formar a ZCAS. No entanto, ingredientes clássicos como a Alta da Bolívia e uma perturbação a leste desse sistema são fundamentais para estruturação do fenômeno. A intensidade e a duração de um evento da ZCAS dependerão da interação dos inúmeros fatores que à mantém.  

Mas não é somente os sistemas regionais que modulam episódios da ZCAS. Durante o verão austral, a Oscilação Madden-Julian (OMJ) e a Zona de Convergência do Pacífico Sul (ZCPS) são fenômenos remotos e importantes para a propagação de perturbações no Hemisfério Sul que favorecem ou não o desenvolvimento da ZCAS. Essas perturbações de escala planetária que afetam a posição da corrente de jato são denominadas ondas de Rossby pelos meteorologistas. Fenômenos como o El Niño Oscilação Sul (ENOS) dentre outros também afetam a ocorrência de ZCAS.

Fases da Oscilação Madden-Julian (OMJ) e área fonte das ondas de Rossby no Hemisfério Sul durante o verão.

Com os modelos atmosféricos cada vez mais robustos, hoje em dia os previsores conseguem identificar com dias de antecedência os padrões atmosféricos que podem formar na ZCAS. O Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/INPE) e a Marinha do Brasil reconheceram o primeiro evento de ZCAS – que atuou mais ao norte – recentemente, sobretudo entre o fim de outubro e o início deste mês.

Prever e monitorar um evento da ZCAS é fundamental para a sociedade, uma vez que as chuvas volumosas associadas ao sistema geram inundações, alagamentos e deslizamentos de terra que resultam em vítimas fatais. Para previsões de tempo e clima específicas para o seu negócio, fale com nossos meteorologistas pelo e-mail contato@temponline.com.br