Brasil e a sua temporada do fogo

Imagens de satélite durante o período de inverno revelam todos os anos a abrangência das queimadas e incêndios florestais nos biomas brasileiros. A temporada do fogo no Brasil é facilitada pelo déficit de precipitação e os baixos índices de umidade do ar desta época. Só que neste ano, o Pantanal está ganhando os noticiários nacionais com seus recordes de focos de incêndio.

A maior parte dos incêndios florestais no país possuem causas antrópicas, isto é, são gerados pelo homem. No bioma da Amazônia, as queimadas têm relação direta com o desmatamento, pois o fogo é utilizado como um recurso de “limpeza” do solo que foi desmatado para posteriormente receber o plantio ou a pecuária.

A colheita da cana-de-açúcar no cerrado é mais um exemplo de atividade agrícola que utiliza das queimadas. O problema é que quando elas não são devidamente controladas, podem resultar em incêndios florestais. No Brasil, as queimadas são regulamentadas e precisam de autorização do Ibama.

Mas ainda existem outras ações humanas que favorecem os incêndios, como o descarte de pontas de cigarro acesas em áreas secas, a soltura criminal de balões, etc.

Os incêndios florestais são responsáveis por inúmeros problemas ambientais anualmente no Brasil, visto que destroem habitats naturais e geram fortes danos à fauna e flora. No entanto, os impactos vão muito além da superfície terrestre. A queima da vegetação devolve à atmosfera o CO2 antes estocado nas plantas e potencializa o efeito estufa.

O período de inverno é o mais seco na maior parte do território nacional. (Fonte: CPTEC)

Quando há um número considerável de focos de incêndio ao mesmo tempo na Amazônia, é comum o transporte das plumas de fumaça para o Centro-Oeste através dos ventos de norte. Nestas ocasiões, muitas cidades do Brasil e até dos países vizinhos recebem a fumaça com fuligem e ainda experimentam valores críticos de umidade relativa do ar, caracterizando um problema de saúde pública.

De acordo com os dados de satélite do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), os 15.805 focos registrados em julho de 2020 ficaram próximos da média, mas superaram o número de focos de julho de 2019 e 2018, onde se registraram 13.394 e 12.652, respectivamente.

Em termos de número total de focos a nível nacional, os meses de maio, junho e julho deste ano estiveram próximos da média. Mas quando se faz uma análise separada por bioma, os Pampas e o Pantanal estão nas piores condições ao longo de 2020, superando até mesmo os valores históricos médios e máximos calculados entre 1998 e o presente.

Gráfico comparativo do número de focos do ano vigente com aos valores mínimos, médios e máximos calculados no período de 1998 até o presente no Pantanal. (Fonte: INPE)

A região de Corumbá no Mato Grosso do Sul é uma das mais afetadas no Pantanal. Até meados de julho, o município já tinha perdido cerca de mil hectares de vegetação nativa nos incêndios. Bombeiros e brigadistas controlam o fogo próximo de áreas urbanas, enquanto a Força Aérea Brasileira (FAB) atua no combate em outras partes do Pantanal sul-mato-grossense.

Incêndios x condições de clima e tempo

O mês de agosto que acaba de iniciar é o mais seco em grande parte do interior do Brasil. Segundo os dados do INPE, com exceção da Caatinga e dos Pampas, os demais biomas brasileiros apresentam os maiores números de focos entre agosto e setembro, antes das primeiras chuvas da primavera.

No mapa abaixo, os tons de laranja e vermelho equivalem as anomalias positivas da Radiação de Onda Longa Emergente (OLR) em W/m². Em outras palavras, anomalias positivas da OLR correspondem a menos nuvens. Portanto, se na média houve menos nuvens na região do Pantanal entre março e julho, é de se esperar também que houve menos precipitação e mais evaporação.

Anomalia da Radiação de Onda Longa Emergente (OLR) no período de Março a Julho sobre a América do Sul

Certos padrões de tempo desta época agravam a propagação dos focos. Dias quentes, com baixa umidade do ar e ventos mais fortes configuram um cenário ideal para o alastramento do fogo na vegetação seca.